Como desenvolver o respeito mútuo com a criança?

27 de Agosto de 2022

Nas primeiras sessões com as famílias, é muito frequente que os pais se queixem do comportamento dos filhos. Assumem aquele espaço como uma oportunidade para desabafar aquilo que mais os incomoda na relação com os filhos e segue-se toda uma panóplia de exemplos, que para mim, que ouço muitas que famílias, são muito comuns e frequentes.

Falam-me sobre a hora do banho, sobre os tpc, a hora de jantar, a hora de levantar, a hora de sair de casa, a mochila que ficou por arrumar… e frequentemente vem a frase mais proferida pelos pais: “parece que ele não me ouve”, ou “ele tem muita dificuldade em respeitar as regras”. É curioso perceber que raramente os pais se queixam de que não respeitam os filhos, ou que não os ouvem também e falam-me pouco de como são criadas as regras.

Trabalho com famílias e crianças há mais de 15 anos e tenho-me apercebido de que é comum e transversal a várias famílias o desejo de mudar alguns comportamentos dos filhos. Isto leva-nos para uma questão que não tem tento a ver com respeito, mas mais com uma necessidade que todos temos que está associada ao controlo e obediência. Quando os pais me falam em respeito, normalmente falam mais sobre ter respeito por parte dos filhos do que propriamente sobre como estão a aplicar o respeito na relação com os seus filhos.

Para começar vamos refletir sobre o que é o respeito e que para ser mútuo tem que ser bidirecional.

  • Afinal o que procuro no respeito mútuo?
  • Será que procuro respeito ou obediência?
  • Será que o respeito é mútuo ou apenas do meu filho para comigo?
  • Como é que posso desenvolver o respeito mútuo?

 

Vamos começar por esclarecer melhor o que significa respeito para cada um de nós e perceber se está mais ligado à autoridade, à hierarquia ou à igualdade. Respeito é um dos valores base da vida em sociedade. Segundo a etimologia, respeito significa “olhar outra vez”. Assim, algo que merece um segundo olhar é algo digno de respeito. Significa demonstrar consideração pelos sentimentos, desejos e direitos dos outros, mas também pelos nossos. Isto quer dizer que o respeito começa em nós, na forma como NOS respeitamos a nós próprios, só assim conseguiremos respeitar o outro e só respeitando o outro é que ele nos poderá respeitar. Então a 1º questão começa por olhar para o respeito que temos por nós mesmos, ou se preferirem o autocuidado.

Como é que nos respeitamos?
Ouvimos os sinais do nosso corpo?
Descansamos quando estamos cansados ou só quando estamos exaustos?

Estas são algumas questões que poderão ser importantes responder antes de avançarmos mais.

Como é que lidamos com o facto de sentirmos que somos sempre nós que fazemos “tudo”? O que é que gostávamos que acontecesse e como é que nos distanciamos dos valores que pretendemos viver e receber.

A resposta pode ser mais simples do que parece. A verdade é que, no nosso dia a dia, não colocamos esses valores em prática. Se pensamos, “Sou sempre eu que faço tudo”, seja qual for a razão para sermos sempre nós a fazer, será que estamos a assumir responsabilidades que são só nossas, ou que eventualmente até são de outras pessoas, incluindo dos meus filhos? Se nos queixamos frequentemente de que estamos cansados de sermos sempre nós a fazer uma determinada tarefa, mas continuamos a fazê-la, para além de não nos estarmos a respeitar, estamos a passar a informação de que a conseguimos fazer. Para existir respeito é essencial existir responsabilidade, quer na forma como nos fazemos respeitar, quer na forma como nos respeitamos.
Será que ajudamos os nossos filhos a serem responsáveis quando somos nós que fazemos tudo?

Que tipo de responsabilidade ajudamos os nossos filhos a desenvolver?

Quando fazemos tudo, o que estamos a comunicar é que essa é a minha responsabilidade. Caso contrário, porque o faríamos?

Valores da parentalidade consciente

Na Parentalidade Consciente existem 4 valores base: (A ordem pela qual estão apresentados não corresponde a nenhum tipo de hierarquia, sequência ou importância.)

  • Responsabilidade
  • Autenticidade
  • Integridade
  • Igual valor

Para entendermos melhor o que significa cada um deles e como se relacionam com o respeito mútuo, vamos explorá-los individualmente nas suas variadas dimensões.

Responsabilidade

A responsabilidade é um dos valores da Parentalidade Consciente e está relacionada com a responsabilidade que temos pela própria vida, pelas próprias emoções, pelas nossas ações e pelas escolhas pessoais. É a capacidade de se colocar na causa dos acontecimentos, e não se considerar o efeito ou a vítima do que lhe acontece. A Forma mais natural de mostrar respeito é através da comunicação, quando comunicamos de forma consciente, mostramos respeito pelos outros e é muito provável que o recebamos de volta. É impossível não comunicar. É a forma mais natural e poderosa de nos ligarmos aos nossos filhos.

Comunicar envolve: Linguagem verbal, linguagem corporal e paraverbal. É fundamental saber o que queremos e como queremos comunicar. É isto que é uma comunicação consciente. Quer dizer que temos Intenções e Valores presentes quando comunicamos.

Autenticidade

Ser autêntico significa credibilidade ou capacidade de nos exprimirmos de forma credível, em momentos de maior harmonia ou conflito. Em ambos os casos, a autenticidade leva-nos à comunicação congruente, com os nossos valores. É através da nossa comunicação que os nossos filhos nos ficam a conhecer e também os nossos limites, porque lhos comunicamos. É por isso que a Autenticidade e congruência, são fundamentais para conseguirmos alinhar o coração com a mente por forma a comunicar a mensagem clara.

Para os nossos filhos o nosso estado de espírito é mais claro do que as palavras (o cérebro das crianças funciona muito mais no “modo emocional” do que no “modo racional”).

Por isso, a Comunicação congruente é clara e assertiva e promove a colaboração e o respeito. Diria mesmo que é esta a chave para o respeito mútuo. Quando não somos congruentes, isso desencadeia na criança protesto e testagem de limites, acompanhado de conflito interno e insegurança quanto à sua capacidade de interpretação da mensagem que lhe é comunicada.

As crianças confiam mais no adulto do que em si mesmas. Se a mensagem que recebe não é congruente ou não é consistente, ou seja, o tom de voz não coincide com a mensagem verbal, ou por outro lado, se num determinado momento dizemos uma coisa, e noutra ocasião, nas mesmas circunstâncias dizemos outra, isso gera confusão na criança e é natural que queira testar o que vai acontecer naquele dia. A Comunicação não congruente dá origem a crianças inseguras e com necessidade de testar limites, porque a mensagem não é clara.

A Comunicação Consciente requere presença e sobretudo que emoções e pensamentos do passado não assaltem o presente. Quando iniciamos um diálogo com os nossos filhos, é importante que seja um diálogo daquele momento sem interferência de emoções que possam ter sido a experiências noutra ocasião. O que podemos fazer? Podemos criar pequenos momentos meditativos para gerir a energia dos filhos ou a preocupação com o jantar. Podemos parar um ou dois minutos antes de irmos ter com os nossos filhos e respirar profundamente, isso permite-nos tomar
consciência de que mudamos de ambiente e de trazer para nós a intenção que temos naquele momento. Cada um de nós saberá quais são as suas intenções enquanto pais. Aproveitamos o momento presente… é só isso!

É importante termos em atenção também que, a forma como comunicamos não pode ter obstáculos que ponham fim ao diálogo. Muitas vezes quando chegamos ao pé dos nossos filhos rapidamente começamos com o discurso: “Devias ter feito” ou “Não faz mal… deixa lá isso” ou ainda, “Como correu a escola?

Em qualquer uma destas ocasiões, perdemos a oportunidade de saber mais sobre a criança, passamos a ideia de que a sua partilha não é importante, ou de que não fez algo bem, ou ainda que colocámos o disco riscado das mesmas perguntas diárias. É importante acolher a criança nas suas partilhas, deixá-la falar e apenas ouvir. Mostrarmo-nos verdadeiramente interessados ao ponto de querer saber mais sobre o que nos partilhou.

Algumas perguntas que podemos fazer para substituir a típica: “- como correu o dia?”

Pode ser: “- Pareces-me entusiasmado, feliz, triste, cansado…(enumera a emoção que lhe parece estar presente) o dia hoje deve ter sido (animado, aborrecido, exigente…) Funcionará como um quebra gelo sem começarmos logo com perguntas que a criança às vezes não quer ou nem sabe bem responder.

Podemos fazer outras perguntas como: “Hoje fizeram alguma atividade diferente? Qual foi a que mais gostaste? Houve algum momento super divertido, hoje?”

É importante que não tornemos estas perguntas num inquérito desenfreado, o objetivo é mesmo conhecermos cada vez melhor os nossos filhos e podermos mostrar-lhes que estamos verdadeiramente interessados nisso.

Obstáculos à Comunicação Consciente

Existem alguns obstáculos à Comunicação que se repararmos, são exemplos de não respeito:

  • Ordenar
  • Aconselhar
  • Inferiorizar
  • Distrair e não valorizar
  • Analisar (Sei mais sobre ti do que tu próprio)
  • Sarcasmos
  • Moralizar
  • Saber tudo

O que podemos então fazer para retirar estes obstáculos?

A Primeira coisa é começar a falar na 1ª pessoa isso relembra o igual valor e traz conexão. Imaginem que o nosso marido ou mulher se dirigia a nós dizendo: “O (a) marido (mulher) quer jantar!”. Ficaria um pouco estranho, não vos parece? Acontece exatamente isto quando dizemos aos nossos filhos: “A (o) mãe (pai) quer jantar.” Ou ainda fazemos a pergunta: “- O Manuel quer jantar?”
Quando falamos na 1ª pessoa falamos de pessoa para pessoa, até para o desenvolvimento da linguagem é importante que se largue a expressão “o bebé” para nos referirmos à criança, passando a chamá-la pelo nome, ensinando-a, ao mesmo tempo a usar o prenome pessoal eu, em substituição de: “- o bebé (ou o Manuel) quer água.” Devemos ajudá-lo a dizer: -“Eu quero água”.

É importante usar a Linguagem pessoal em vez de frases abstratas, como por exemplo:
“O Rodrigo tem de se portar bem!” ou “Isso não se faz ai,ai,ai!” Este tipo de discurso é impessoal e abstrato e não cria qualquer tipo de conexão com a criança.

Quando falamos em comunicar devemos ter em atenção que é fundamental transmitir as nossas necessidades e emoções naquele momento.

Para isso posso dizer: “- Fico mesmo nervosa quando nos atrasamos.” Em vez de: “A mãe já te avisou! Despacha-te.”

Um outro exemplo também pode ser na forma como fazemos os pedidos: “- Quando ficas assim tão agitado também me começo a sentir agitada e agora sinto mesmo necessidade
de acalmar, podes fazer uma coisa menos barulhenta, por favor?”

Este discurso ajuda a criança perceber que os seus comportamentos têm um impacto e consequências para a outra pessoa, isso ajudá-la-á, ao mesmo tempo, a desenvolver empatia. Através do nosso comportamento ajudamos a criança a mostrar também os seus sentimentos, emoções e necessidades. Uma grande mais-valia da linguagem pessoal é a diferenciação entre pessoa e
comportamento.

Para desenvolver a linguagem pessoal é fundamental comunicar com presença, para isso precisamos de tomar consciência do momento presente, fazendo uma pequena pausa
entre sentir e agir.

Para desenvolver a linguagem pessoal.

  1. Respirar antes de falar.
  2. Conectarmo-nos com os nossos filhos no momento em que falamos, ficando próximo deles e sempre que possível ao mesmo nível em ternos de altura.
  3. Começar por explicar o problema, o que vemos ou observamos, usando a 1ª pessoa.
  4. Explicar como nos sentimos quando observamos aquilo.
  5. Falar sobre as nossas necessidades, que são o a razão de sentires o que sentes.
  6. Fazer o Pedido- Explicar o que queremos e o que não queremos.

Para fazer pedidos

Podemos escolher o que melhor se adequa a nós e à criança. Podemos usar várias e diferentes abordagens, mais curtas e diretas ou mais extensas e explicativas.

Exemplos:
“A toalha do banho está no chão. Fico mesmo frustrada quando vejo a casa de banho desarrumada…”
“ Preferes arrumar a toalha antes ou depois de começares a ver televisão?”
“Quando é que achas que vais arrumar a toalha?”
“ Está uma toalha no chão.”
“ Toalha!!!”

Nem sempre é necessário usarmos muitas palavras e explicações para comunicar o que queremos. Para algumas crianças podem funcionar apenas recados escritos, desde que a mensagem contida seja respeitosa. Por exemplo, podemos deixar uma mensagem na porta do nosso quarto, para que os nossos filhos (no caso de crianças mais velhas e com autonomia) nos deixem descansar um pouco ao fim de semana. A mensagem, pode dizer qualquer coisa, desde que tenha por base os valores da vossa família.

O mais importante é que a mensagem, seja escrita ou verbal, seja pessoal e autêntica e congruente com os nossos valores, para não cairmos na tentação de querer corresponder às expetativas dos outros. Isso pode, por um lado fazer com que não estejamos a respeitar as nossas intenções e por outo lado a não respeitar os nossos filhos naquela situação em particular. Uma comunicação Consciente e com respeito envolve a Comunicação Ativa que é fundamental para gerar conexão com os nossos filhos e requere:

  • Escuta Ativa
  • Ouvir as emoções da criança
  • Espelhar as emoções
  • Encontrar soluções e avaliar consequências

A Escuta Ativa requere presença, ou seja, um encontro com a criança naquele momento e não com o comportamento de ontem ou dos últimos dias. Predispomo-nos a ouvir com o coração, com empatia, a única intenção deve ser apenas ouvir. Ouvir as emoções da criança, não são boas ou más, pode ser desafiante lidar com algumas delas em alguns momentos, mas não é por não as aceitarmos que elas desaparecem. Por vezes as crianças não conseguem falar sobre a emoção que estão a sentir, nem sempre conseguem atribuir-lhe um nome e por isso torna-se fundamental que consigamos ajudá-los a espelhar as emoções, dando-lhes nós um nome, a partir do conhecimento que temos sobre algumas delas. Podemos dizer: “pareces mesmo zangado com o teu irmão…queres contar-me o que aconteceu?”

Durante este processo de comunicação ativa não devemos perder o foco nas soluções, auxiliando os nossos filhos a avaliar as consequências. É muito interessante ver como as crianças encontram soluções surpreendentes, quando lhes damos esse espaço, sem as abandonar, às vezes será mesmo importante fazer sugestões, mas sem impor as nossas ideias ou opiniões.

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Por Ana Salvador

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